A ditadura da beleza e a revolução interna

A ditadura da beleza e a revolução interna

09/05/2019 0 Por Patricia Zapani

O Brasil é o 2° país onde mais se realiza cirurgia plástica e está no topo do ranking dos maiores consumidores de produtos de beleza do mundo.

Inclusive, a indústria de cosméticos é uma das que mais fatura e cresce ano após ano.

O que isso representa na prática? Que há uma preocupação excessiva com o corpo que escraviza e tem levado à morte.

Isso não é alarmante?!

MINHA EXPERIÊNCIA

Para quem não me conhece, eu sou Patrícia Zapani. Tenho 29 anos, nasci na Bolívia, mas moro no Brasil há 21 anos e desde então eu tenho aprendido (às vezes de forma prática) a identificar e lidar com a Ditadura da Beleza.

Eu, enquanto profissional de Moda e Beleza, estudante e aficionada do assunto, amo cosméticos, maquiagem, cuidados com a pele, mas não sou mais escrava disso, nada disso define quem sou.

Hoje quero começar falando da minha experiência, que é o que me levou a esta reflexão.

A Bolívia é um país de etnias indígenas e descendência de espanhóis e mestiços. Tenho traços indígenas, não apenas o cabelo liso, mas os olhos puxados, que muitas vezes são confundidos com orientais pela pele mais amarelada.

Mas minha família é uma grande mistura de bolivianos com italianos. Logo, entre Baldiviesos e Zapanis é possível encontrar características completamente diferentes às indígenas.

Quando cheguei ao Brasil, ainda pequena, não havia tantos bolivianos como hoje em dia.

Mas já naquela época (e ainda hoje), as pessoas olhavam para nós, bolivianos, e achavam que éramos feitos em série, que éramos todos iguais.

E inclusive diziam para os meus pais: “vocês são tão lindos, nem parecem bolivianos”, apenas porque meus pais eram altos, tinham o cabelo ondulado e nossa pele era mais clara.

Será que seria isso um elogio?!

Desde criança a questão da “aparência” me causa milhões de sensações, mas creio que isso não acontece apenas comigo que sou “diferentona” por ser estrangeira.

Todos nós ainda na infância recebemos informações através das mídias, TV, cinema, meios de comunicação como um todo, que nos condicionaram a crer que a beleza está em um único padrão, aquele que só a “Barbie e o Ken” têm: loiros, altos, sarados, “PERFEITOS”… (os padrões hoje são as irmãs Kardashian ou algo do tipo).

Mas, calma! Como eu, baixinha, 1,59 e meio de altura, morena/amarela, com tendência à flacidez, zero peito grande, zero bunda, alcançaria isso um dia se apenas 3% das mulheres do MUNDO INTEIRO tem os genes da Barbie?!

Ser parte dos 97% me faz uma mulher feia? E se você se identificou com alguma característica minha, você, então, não é “BELA”?

Temos que sair correndo e arriscar nossas saúdes e vidas para entrarmos em padrões pré-definidos?

De jeito nenhum!

Somos condicionados a crer que a beleza está apenas na aparência, mas vai muito além. Quem relaciona o belo à aparência é a DITADURA DA BELEZA.

E eu, como a maioria das mulheres, já fui escrava dela. Já ouvi de pessoas muito próximas: “você é horrível!”, “não usa esse tipo de blusa, te deixa horrorosa porque seu pescoço é curto”, “não deixa seu cabelo crescer, vai ficar péssimo porque você é baixinha”, “por que você passa batom de ‘x’ cor se sua boca é gigante”, “está tão magra que parece ter corpo de criança, para de emagrecer!”.

Por muito tempo eu realmente acreditei em tudo o que eu ouvia. Buscava aprovação das pessoas e me frustrava porque acredite: NUNCA seremos completamente aceitos por todos.

Foi aí que começou uma revolução dentro de mim porque deixei de olhar o externo e passei a olhar o interno. Silenciei as outras vozes para ouvir a única voz que importa: do meu Pai, que me ama do jeito que sou.

Então, descobri alguns pontos importantíssimos para começar uma revolução contra a ditadura da beleza que podem te ajudar também:

1º ACEITAÇÃO

Se aceite! Uma das nossas maiores batalhas é nos aceitarmos. Batalhamos com uma raiz chamada rejeição e em vez de arrancarmos ela de vez, alimentamos ela constantemente. Sempre que nos olhamos no espelho e queremos mudar algo. Liberamos, então, palavras de ódio sobre alguma região do nosso corpo, ou sobre nós como um todo.

Esquecemos que o que a gente fala é a realidade que a gente cria e começamos a falar: que gorda eu estou, que nariz horrível, que olhos caídos, que pescoço curto… Depois de um tempo repetindo isso, mesmo que você não esteja gorda, você vai passar a crer que está e isso pode desencadear algum distúrbio de imagem ou alimentar, porque um abismo chama o outro.

Que tal se olhar no espelho e liberar palavras de amor? Que tal falar em voz alta sobre o que te torna única e linda?

2º DESCUBRA QUEM VOCÊ É

Não adianta mudar o que está por fora sem trabalhar o que está dentro. É preciso descobrir a verdadeira beleza! Ser quem você é te faz linda! Mas quem você é?

Muitas vezes temos sido apenas o reflexo das nossas experiências e deixamos de ser quem deveríamos ser (quem já somos) por medo de rejeição.

Mas, tem duas frases que quero que você sempre lembre:

“Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito.” William Shakespeare

“Não importa o que fizeram comigo, importa o que eu faço com o que fizeram comigo.”  Jean-Paul Sartre

Podemos utilizar cada situação que vivemos e escolher o que nos tornar a partir disso e não simplesmente responder a isso.

Diante de uma dor e decepção, eu posso escolher me tornar alguém amargurada ou aprender a perdoar e expandir a minha capacidade de amar.

Sair das nossas cavernas emocionais e decidir não ser o resultado dos nossos traumas não é uma tarefa fácil.

É preciso querer muito e, diariamente, abraçar o processo de desconstrução e reconstrução.

3º SE ALIMENTE DE DENTRO PRA FORA

O que você consome a maior parte do seu tempo livre: livros que edificam seu interior, sua mente, sua alma, seu espírito, ou o instagram?

Se a resposta for instagram: quem você segue lá? As blogueiras e celebridades que mostram “a vida perfeita” o dia todo que te causam certa frustração por não ser/ter metade daquilo ou pessoas reais, comuns?

Se a resposta for a primeira opção, está na hora de se alimentar de algo diferente.

Se o instagram tem sido a fonte de alimento dos seus olhos, pode ter certeza que, mesmo inconscientemente, você vai passar a se comparar, comparar sua vida e sua história com “o mundo ideal e instagramável” e vai se tornar alguém insatisfeita. Por isso é preciso um detox!

Dê um tempo das redes. Troque esse alimento por livros ou materiais que vão dar um “up” em quem você já é. Faça um investimento de dentro pra fora.

4º SEJA TRANSPARENTE COM O QUE VOCÊ SENTE

Muitas vezes a gente prefere ignorar como se sente a respeito de nós mesmas e dos nossos corpos e acaba se auto-sabotando.

Mas quero te dizer que Jesus, meu maior exemplo a seguir e meu herói, diante de uma cruz que lhe esperava, foi totalmente transparente e disse: “Pai, se for possível passa de mim este cálice”.

Ele não queria aquilo, mas não fingiu que estava tudo bem. E você: tem ocultado o que sente, negado pra você e pra todos ou tem exposto e enfrentado cada sentimento para que haja cura?

Você é sincera com você mesma com relação ao que viveu?

Não tem nada melhor do que “expor” sua dor, porque você se ajuda e ajuda outras pessoas. Isso é empatia!

Então, seja forte! Coragem! Abra a sua caixa de segredos! Mostre ao mundo que existe sim reconstrução, existe o novo, existe o amanhã!

A única forma de ajudarmos a sociedade a ser livre da Ditadura da Beleza é nos transformarmos de dentro pra fora.

Eu passei a olhar com carinho para o meu corpo. Para o meu pescoço curto. Para o meu dedão “anão”. Parei de gastar tempo tentando ser quem não sou.

Coloquei para fora o lixo que estava dentro de mim e passei a experimentar a liberdade, principalmente da necessidade de agradar aos outros.

Dá pra se sentir bonita ainda sem maquiagem, sem o cabelo escovado ou ondulado (no meu caso, porque sou apaixonada por babyliss), sem salto alto, sem silicone, sem plásticas… basta nos aceitarmos, nos amarmos e descobrirmos quem somos de dentro pra fora!